09 julho

O raciocínio nada lógico da cozinha

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Acordei, tomei café, fiz chá com as maçãs que iriam estragar caso não fossem resgatadas da gaveta da frutas. Gelei o chá, sobraram maçãs cozidas. Olhei para elas e vi que poderiam render uma torta. Deixei na panela sobre fogão, com prato por cima. Fui trabalhar. Na volta, passei no supermercado para buscar umas coisinhas faltantes na geladeira. Queria macarrão com frutos do mar. Me senti agredida pelo valor duplicado do pacote "kit paella" no freezer daquele lugar onde nem sempre a gente é feliz… Mudei de gôndola. Encontrei duas sobrecoxas de pato com um preço amigo. Coloquei no carrinho. Comprei pão, leite, morangos orgânicos na promoção e o pacote de suspiros estrategicamente colocados ao lado da gôndola dos morangos (podia render uma sobremesa fácil, rápida e gostosa). Também comprei gelatina incolor, vinho e batatas. Cheguei em casa. A cozinha estava uma zona. Lavei a louça, guardei tudo, temperei o pato. Lembrei que tinha molho de pato pronto no freezer – sim, eu guardo coisas desse tipo no freezer. Lembrei das maçãs. Dei um Google: "Torta de maçã fácil". Imprimi. Vi que a receita pedia manteiga, que esqueci de comprar. Google de novo: "Bolo de maçã sem manteiga". Encontrei uma receita de Bolo Turco de Maçãs, postada por uma mocinha prendada que mora na Alemanha e não atualiza o blog desde setembro de 2009. Achei promissora. Cortei as maçãs cozidas enquando batia os ovos com açúcar. Misturei os outros ingredientes, adicionei as maçãs, untei a forma com óleo porque não tinha manteiga e coloquei o bolo no forno. Enquanto isso, o pato marianava e resolvi preparar gelatina de iogurte – tinha guardado a receita no meio da semana e estava aguada por ela, por isso a gelatina incolor do supermercado… Fiz a gelatina em dez minutos. Olhei para os morangos e avistei ali a possibilidade de um café da manhã de hotel no dia seguinte: bolo de maçãs (que já estava quase pronto e muito cheiroso), gelatina de iogurte e geléia de morangos feita em casa. Fiz a geléia, desencanei dos suspiros. Ficam para outro dia. Tirei o bolo do forno e coloquei o pato para assar em uma cama de banha – que tinha sobrado de outro pato, feito recentemente nesta cozinha. Moral da história: enquanto encaro a segunda taça de vinho, o pato assa e meu café da manhã de hotel de amanhã está garantido, penso que a terapia da cozinha vale por 2 mil anos de análise (como diz o Adão). Quem consegue pensar em qualquer coisa enquanto se diverte entre panelas, aroma de bolo e a promessa de um jantar muito bom logo mais? A foto suculenta foi gentilmente roubada do site The Kitchn durante a minha busca por receitas novas.

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